Pedro Henrique Torres Bianchi, consultor em processo de reestruturação empresarial, destaca que, durante muito tempo, buscar ajuda especializada para lidar com dificuldade financeira foi tratado como último recurso, algo que só fazia sentido quando a situação já estava perto do limite. Ele frisa que esse comportamento vem mudando de forma perceptível nos últimos anos.
Observamos, então, um movimento crescente de empresas que procuram orientação jurídica e de gestão em estágio bem anterior ao que costumava ser comum, muitas vezes diante dos primeiros sinais de aperto de caixa, e não apenas quando a inadimplência já se instalou.
Por que esse movimento está acontecendo?
Esse movimento tem explicações concretas. A informação sobre instrumentos de reestruturação circula há mais de uma década, o que reduziu o estigma associado a procurar ajuda cedo. Também cresceu, entre gestores e conselhos, a percepção de que o custo de agir tarde costuma ser muito maior do que o de agir cedo, ainda que o problema pareça administrável no início.
Outro fator é a diversificação do próprio mercado de crédito. Com mais fundos, fintechs e estruturas de financiamento diferentes disputando espaço, empresas passaram a ter mais opções de renegociação disponíveis antes de chegar a um cenário extremo, o que torna a antecipação mais atraente do que era quando o crédito bancário tradicional dominava quase todas as alternativas. Quanto mais alternativas de financiamento existem no mercado, maior o incentivo para comparar condições cedo, em vez de aceitar a primeira proposta disponível sob pressão.
O que muda no trabalho de reestruturação quando a ação é antecipada?
Pedro Bianchi nota que esse comportamento mais preventivo muda a natureza do trabalho de reestruturação. Em vez de atuar apagando incêndio, com prazos curtíssimos e margem de negociação já reduzida, o profissional passa a atuar em um momento em que a empresa ainda tem opções reais sobre a mesa, o que costuma produzir resultados mais favoráveis para todas as partes envolvidas, incluindo credores.

Um plano construído com tempo permite testar cenários, negociar condições mais equilibradas e evitar decisões precipitadas tomadas sob pressão de caixa imediata. A diferença entre um plano pensado com antecedência e um plano montado às pressas raramente está na criatividade da solução, mas na qualidade da informação disponível para sustentá-la.
Uma tendência ainda desigual entre empresas
Essa mudança também altera a forma como conselhos e diretorias tratam o tema internamente. Discutir cenários de dificuldade deixou de ser assunto tabu em algumas empresas e passou a fazer parte de exercícios regulares de planejamento, ao lado de temas como expansão e investimento. Falar sobre risco de crise deixou de soar como admissão de fracasso e passou a ser tratado como parte razoável da gestão de qualquer negócio exposto a ciclos econômicos.
Pedro Bianchi observa que empresas mais maduras nesse aspecto costumam manter indicadores simples de alerta, revisados com regularidade, como cobertura de caixa e concentração de dívida por credor, o que permite identificar deterioração antes que ela se torne evidente nos resultados.
Ainda existe, porém, uma distância entre esse discurso e a prática em boa parte das empresas menores, que seguem esperando o problema se agravar antes de buscar orientação, geralmente por restrição de custo ou por não terem estrutura interna dedicada a esse tipo de monitoramento contínuo.
O que essa mudança sinaliza para os próximos anos?
De qualquer forma, a tendência de agir mais cedo parece consolidada entre empresas de maior porte e mais sofisticação financeira, e tende a se espalhar conforme o custo de acesso a esse tipo de orientação diminui. Empresas que se anteciparem a essa curva, em vez de esperar que ela se torne padrão geral, tendem a acumular vantagem competitiva justamente no momento em que mais precisam dela, quando a economia aperta e o espaço de negociação com credores se torna, para todos, mais disputado.
O que essa mudança sinaliza, no fundo, é uma revisão de prioridade dentro da gestão empresarial: tratar a saúde financeira como algo a monitorar continuamente, e não apenas a corrigir quando o problema já bateu à porta. Pedro Henrique Torres Bianchi, nesse contexto, constata que empresas que internalizarem essa lógica primeiro tendem a chegar a qualquer próxima crise, inevitável em algum ciclo futuro, em posição bem mais confortável do que aquelas que ainda tratam prevenção como custo dispensável.
