Programa federal amplia rotas, estimula concorrência e transforma a logística de regiões historicamente dependentes do transporte rodoviário.
Quando o Programa BR do Mar foi criado, a promessa era clara: tornar a cabotagem mais acessível, mais competitiva e mais presente em regiões que historicamente dependiam quase que exclusivamente das rodovias para mover suas cargas. Quatro anos depois, os dados da Antaq mostram que o programa cumpriu parte relevante dessa promessa, embora os desafios estruturais que limitam o crescimento do modal ainda estejam longe de ser superados.
O que o BR do Mar fez, essencialmente, foi criar um ambiente regulatório mais atraente para novos operadores e ampliar a segurança jurídica do setor. Isso estimulou a entrada de novos armadores, aumentou a oferta de rotas e, em consequência, gerou mais concorrência. Para quem embarca mercadorias, a competição resultante foi bem-vinda.
A pergunta que o setor faz agora é: o programa conseguiu criar uma mudança estrutural, ou estamos diante de um crescimento que depende de fatores externos e que pode reverter com uma mudança de governo ou de conjuntura econômica?
O Que os Dados Revelam Região por Região
O crescimento da cabotagem em 2025 e início de 2026 foi documentado com detalhes pela Antaq, e os resultados variam bastante de acordo com a região. De 2022 a 2025, após a criação do Programa BR do Mar, a cabotagem de contêineres na região Norte cresceu ano após ano. O volume transportado passou de 2,4 milhões de toneladas em 2022 para 3,2 milhões em 2025, o maior volume já registrado na região. GOV.BR
Os principais polos de origem da cabotagem na região Norte concentram-se no Pará, com destaque para os terminais de Trombetas, Juruti e Vila do Conde, além de Manaus. A partir desses pontos, as cargas seguem, em sua maioria, para portos das regiões Nordeste e Sudeste, que funcionam como centros de distribuição e consumo. GOV.BR
No Nordeste, a movimentação também mostrou crescimento. A cabotagem no Nordeste movimentou 1,82 milhão de toneladas em janeiro de 2026, segundo dados da Antaq. A movimentação foi liderada pelo Maranhão, seguido pela Bahia, Pernambuco e Ceará. Entre os produtos mais transportados estão petróleo bruto, bauxita, derivados de petróleo e contêineres. GOV.BR
Como o BR do Mar Mudou as Regras do Jogo
O programa não funcionou como intervenção direta no mercado, mas como redesenho das condições para quem já operava ou queria entrar no setor. O crescimento da cabotagem no Norte está associado às diretrizes do BR do Mar, que ampliaram a oferta de serviços, estimularam a concorrência e fortaleceram a segurança jurídica do setor. “Esses fatores são especialmente relevantes em regiões com grandes distâncias e elevada dependência do transporte aquaviário”, afirmou o secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier. GOV.BR
Entre os avanços regulatórios mais recentes estão a Portaria de Cláusulas Essenciais para Contratos de Longo Prazo, publicada em novembro de 2025, e a Portaria de Embarcação Sustentável, em fase final de regulamentação. Essas medidas criam previsibilidade para investidores que precisam de horizontes de retorno mais longos antes de comprometer capital em novas embarcações ou rotas.
Com os efeitos do BR do Mar se consolidando no mercado, a expectativa é que os armadores ampliem tanto a frequência quanto a capacidade de suas rotas, permitindo atender novos polos industriais e regiões antes pouco exploradas. As projeções indicam expansão em corredores estratégicos, como as rotas entre o Norte e o Sudeste, impulsionadas pelo avanço do agronegócio, da mineração e do setor de papel e celulose. Guiamaritimo
O Futuro da Cabotagem Passa pela Digitalização
Os terminais que operam cabotagem seguem rumo a um ciclo mais intenso de automação e digitalização, motivados pela busca contínua por eficiência e pela necessidade de reduzir custos estruturais. Entre as iniciativas em ascensão estão sistemas avançados de predição meteorológica e marítima, que conectam informações ambientais diretamente à operação e apoiam decisões mais seguras sobre eficiência na navegação, janelas de atracação e produtividade dos equipamentos. Guiamaritimo
A interiorização das operações também é uma tendência em desenvolvimento. A interiorização das operações, viabilizada por portos fluviais integrados à cabotagem, deve ganhar força e ampliar significativamente o alcance do modal, levando competitividade logística a novas regiões e reduzindo distâncias dentro da própria matriz de transporte brasileira. Guiamaritimo
Para o e-commerce, que cresce aceleradamente no Brasil, a cabotagem começa a ser vista como alternativa real para distribuição de mercadorias em escala nacional. Cresce o uso de contêineres como verdadeiros “mini centros de distribuição móveis”, ampliando a flexibilidade logística e otimizando estoques em trânsito. Também evolui a criação de malhas reversas dedicadas ao tratamento de devoluções, demanda cada vez mais relevante no varejo digital. Kinoplex
O mapa da cabotagem brasileira está sendo redesenhado. Não de forma dramática, mas de maneira consistente e sustentada. E os dados de 2025 e 2026 indicam que essa reconfiguração tem bases mais sólidas do que as que existiam há cinco anos. O desafio agora é consolidar os avanços e evitar que a dependência do rodoviário continue limitando o crescimento de um modal que, para o Brasil, é muito mais estratégico do que os números atuais fazem parecer.
Fontes: Ministério de Portos e Aeroportos | Guia Marítimo | Tecnologística
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
