Com 303,7 milhões de toneladas em 2025 e crescimento consistente, o modal marítimo costeiro avança, mas ainda representa apenas 9% das cargas transportadas no país.
O Brasil é um país de costa. São mais de 8 mil quilômetros de litoral que, no papel, representam uma das maiores infraestruturas naturais de transporte marítimo do mundo. Na prática, porém, a cabotagem ainda responde por uma fração pequena do que circula pelo país. E esse descompasso é justamente a grande questão que o setor coloca para 2026: se os números estão crescendo, por que o modal ainda está tão longe de seu potencial real?
A movimentação de cargas no setor aquaviário brasileiro alcançou 1,4 bilhão de toneladas em 2025, crescimento de 6,1% em relação a 2024. A cabotagem atingiu 303,7 milhões de toneladas, com alta de 3,4%. “É mais um recorde no setor aquaviário. Não se trata de um bom momento pontual, mas de uma trajetória de crescimento do setor”, afirmou Frederico Dias, diretor-geral da Antaq. Transporte Moderno
Os dados são positivos. Mas a comparação internacional é reveladora e desconfortável. E ela ajuda a entender o tamanho do caminho que ainda falta percorrer para que o Brasil faça jus ao seu litoral.
Os Números do Crescimento e Onde Está o Puxão
O crescimento da cabotagem em 2025 não foi uniforme. As regiões Norte e Nordeste puxaram parte expressiva dos resultados, impulsionadas pelos efeitos do Programa BR do Mar, criado para estimular a competitividade e a oferta de rotas na navegação costeira. Entre janeiro e novembro de 2025, o transporte por cabotagem movimentou 10,8 milhões de toneladas na região Norte, segundo dados da Antaq. Na comparação com o mesmo período de 2024, houve alta de 8,25% na movimentação de contêineres. GOV.BR
No Sudeste, os números também impressionam em volume absoluto. Em 2025, a cabotagem movimentou 155,7 milhões de toneladas nos portos do Sudeste, alta de 3,18% em relação ao período anterior. A movimentação foi liderada por São Paulo, com 21,8 milhões de toneladas, seguido por Rio de Janeiro, com 9,8 milhões, e Espírito Santo, com 9,7 milhões. GOV.BR
O porto com maior movimentação geral continua sendo o de Santos, que movimentou 142,8 milhões de toneladas entre importação, exportação e cabotagem. O emprego da cabotagem tem ampliado o abastecimento, reduzido custos logísticos e integrado a produção regional aos principais mercados do país, segundo a Antaq. Mobil
Por Que o Modal Ainda é Pequeno Perto do Potencial
Atualmente, apenas 9% do transporte de cargas no Brasil é feito via cabotagem. Esse índice está muito abaixo de outras regiões com grandes litorais, como o Japão (44%), a União Europeia (32%) e a China (25%). O contraste é marcante e aponta para um problema sistêmico que vai além da falta de investimento: é uma questão de cultura logística, burocracia e infraestrutura. FIERN
A cabotagem é frequentemente submetida a exigências documentais que espelham o transporte internacional de longa distância, mesmo se tratando de uma navegação doméstica. Essa disparidade impõe a participação de múltiplos agentes envolvidos na fiscalização portuária, como Antaq, Anvisa, Receita Federal, Marinha, Polícia Federal e Ministério da Agricultura. Resultado: o tempo e o custo de uma operação de cabotagem muitas vezes não compensam em relação ao caminhão, mesmo quando as distâncias tornariam o modal marítimo a escolha óbvia. FIERN
O estudo da CNI identifica que o Brasil tem potencial para, no longo prazo, quadruplicar o transporte de contêineres por cabotagem. Para isso, serão necessários novos investimentos em infraestrutura portuária, melhoria das condições de acesso aos portos, estabelecimento de novas linhas regulares, redução da burocracia e mudança na cultura logística dos empresários nacionais. FIERN
O Que 2026 Traz de Novo para o Setor
As perspectivas para 2026 indicam continuidade do crescimento, mas com uma agenda de desafios ainda a resolver. A Antaq estima que a movimentação portuária alcance 1,44 bilhão de toneladas em 2026, crescimento de 2,7% sobre 2025. Para 2030, a estimativa é de 1,59 bilhão de toneladas movimentadas no setor portuário nacional. Tecnologistica
No Porto de Itajaí, os números de 2026 já chamam atenção. Nos quatro primeiros meses do ano, foram movimentadas 1,67 milhão de toneladas, crescimento de quase 40% em relação ao mesmo período de 2025. Somente em abril, o volume foi de 430,3 mil toneladas, alta de 57% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O resultado reflete a recuperação do porto após um período de gestão turbulenta e sinaliza o potencial que existia represado. Informativodosportos
O Plano Nacional de Logística Portuária projeta crescimento consistente na movimentação de cargas pelos portos brasileiros até 2060, com destaque para o aumento da participação da cabotagem, que deve sair dos atuais 20% do total para 30% em 2060. A meta é ambiciosa, mas atingível se as reformas regulatórias avançarem e os investimentos em infraestrutura se materializarem no ritmo previsto. Guiamaritimo
O crescimento da cabotagem é real. O potencial ainda não aproveitado também. E a diferença entre os dois está, em grande parte, nas decisões que o Brasil tomará nos próximos anos sobre burocracia, infraestrutura e cultura logística.
Fontes: Antaq / Ministério de Portos e Aeroportos | Transporte Moderno | FIERN / CNI
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
